Órfãos

Os furacões, maremotos, terremotos, avalanches, tsunamis, secas, enchentes, deslizamentos, descasos, desmandos, remanejamentos de verbas, guerras civis, fratricidas (todas as guerras são fratricidas na minha opinião), transformam milhões de pessoas em refugiados, números, almas.

Geram lucros e órfãos ao desmembrar indivíduos e famílias. Incrivelmente neste mundo, parece que precisa acontecer o pior para o melhor aparecer apesar das muitas vítimas só se igualarem com a grandeza da atitude de poucos. 

Felizmente a famosa Lei que versa que "tudo se transforma" também se aplica em alguns dos casos com a formação de novas famílias com adoções de filhos ou apoio aos adultos refugiados. Muitos entendem que fazemos parte da grande família humana que se não conhece fronteiras de amor o que dirá daquela física entre países. 

Vivemos em um tempo em que um pai pode ser mãe também, uma mãe pode ser pai e ter esposa em uma expansão de amor de doação que não conhece fronteiras gênero afinal a opção sexual e menor do que a obrigação de amar.

Em plena pandemia somos obrigados a entrar em nós mesmos ao não podermos sair através de outros, outras ou mesmo em passatempos que muitas vezes se transformam de diversões em simples motivos para nos distrair do essencial contato com nós mesmos e com os outros que existem em nós e em nossas vidas.

Interessante que o isolamento social parece nos obrigar a direcionar o foco para o que realmente é essencial em nossa vida. É quase como pegar uma imensa caneta marca-texto e jogar na nossa cara o que muitas vezes tentamos distrair com dinheiro, bebida, comida, sexo, festas e tantos prazeres fugazes que como dizia aquela música dos anos 80 "não abrandam o frio da alma".

Descobrir que alguém em nossa cidade, nossa rua, nosso condomínio ou nosso vizinho morreu mais ou menos com a nossa idade tem o poder imediato de jogar a tragédia e o medo em nosso colo. Uma grande bomba do Riocentro em nossas mãos. E o pavio está aceso.

Um cenário bem diferente das mazelas citadas no começo do texto que apesar de nos aproximar em desgraça pelo sentimento de solidariedade se mostrava muito distante da realidade de muitos afinal o desastre natural mais comum aos brasileiros são a sua classe política.

Veja que curioso, nos desastres citados anteriormente não havia perigo em ajudar, colaborar ativamente e presencialmente levando uma palavra de conforto e apoio. Na epidemia atual esta oportunidade se fechou pois tirando os essenciais heróis médicos, ninguém pode se arriscar a ter contato com os infectados, a menos que queira se transformar em mais uma vítima do Covid-19.

Ou seja parece que esta epidemia resolveu passar também o marca-texto em nosso comportamento nos acidentes anteriores nos lembrando que agora só sobra tempo para os egoístas de antes cuidarem da própria pele.  

Apesar disso tudo, a pandemia atual tem o poder de transformar e com certeza, este choque tão forte será a ferramenta ideal para quebrar tantos corações endurecidos que ao ter tempo de sobra e serem obrigados a rever atitudes, valores e comportamentos poderão descobrir que a verdadeira cura para o Covid está em uma vacina capaz de conter anticorpos contra o egoísmo e todas as formas de preconceito ainda tão disseminados no mundo.

A urgência da falta de tempo o torna mais valioso e nos mostra que qualquer segundo é tempo de amar.

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