O escritor e o equilibrista
Todo artista sem sua arte se sente menor, mutilado e incompleto. Picasso em seus mais de 80 anos de idade dizia que não se cansava ao pintar mas sim quando tinha que entreter as visitas.
Existe ainda o caso de um grande pianista internacional que em sua idade avançada sofria de artrose, artrite e tinha enorme dificuldade para se levantar da cama. Seu caminhar era lento, trôpego (sempre quis usar esta palavra!) e com um infinito arrastar dos pés. Sua postura? A pior possível: curvado para frente e com a cabeça quase sempre voltada para baixo. No entanto, todas as manhãs ao se levantar da cama ele corria ao encontro da sua arte andando lentamente em direção ao seu piano de cauda.
Lá, ao sentar em seu banquinho uma metamorfose acontecia: Seu tronco tornava-se ereto com a subida de seus ombros e o levantamento de sua cabeça. os pés assumiam sua posição de repouso retos no chão ou devidamente posicionados nos pedais do instrumento musical. Seus dedos encurvados se abriam ganhando leveza, graça, velocidade e desenvoltura ao percorrer as teclas do piano para reproduzir as mais belas canções. Uma onda de prazer percorria seu corpo e encontrava uma janela aberta no largo sorriso que transformava e parecia rejuvenescer seu rosto.
Este meus amigos e amigas é o poder transformador da arte até mesmo em quem a produz. Encontrar um canal de expressão pessoal tem este poder terapêutico para qualquer um, inclusive para os simples mortais que possuem um hobby que amam e lhes dão prazer.
Sem dúvida a pergunta chave para descobrir sua arte, hobby ou paixão é se fazer a pergunta O que você faria até de graça?
No meu caso, como pode se notar por este blog, minha paixão é a escrita que ganha por pouca diferença da leitura. Desde que me lembro, provavelmente desde as primeiras letras, amo escrever e na escola enquanto muitos tinham calafrios dos exercícios de redação, eu tinha era ansiedade e muita expectativa sobre qual tema poderia desenvolver meu texto e minhas impressões.
Meus pavores eram outros, Física e Química que apesar de meus professores assegurarem que apesar de comporem meu corpo e ditar os parâmetros da minha vida nesta Terra, nunca fizeram parte de minha alma.
Escrever sempre foi a válvula de alívio para os pensamentos, sentimentos e questionamentos que dominam minha mente entre os dois contatos diários entre minha cabeça e o travesseiro.
Ao contrário da fala que me gerou tantas enrascadas, o texto permite a revisão de palavras, frases e conceitos e o que é mais legal, me permite refletir enquanto o produzo. Talvez este seja o "pulo do gato" quando comparado com a fala e as conversas: se falo uma coisa e mudo de ideia na frase seguinte, passo indecisão, inconstância e até arrisco a perder a minha credibilidade e consideração.
Com o texto ninguém percebe pois quem escreve pode até reescrever 1.000 vezes um parágrafo mas quando encontramos a versão definitiva, ela dá um sinal dentro de nós e uma grande calma e serenidade toma conta do nosso pensamento como se dizéssemos "É isso!'
No meu caso, desconfio até que é esta sensação de bem-estar que me leva a escrever. Uma euforia "dopamínica" que traz euforia e calma ao mesmo tempo. E lógico, é viciante! A menos que eu seja muito egocêntrico ou o Romário (dá na mesma), dificilmente terei esta sensação após todas frases ditas em uma conversa.
O mais curioso é que apesar de nunca deixar de escrever, sinto que abri mão desta sensação por muito tempo, talvez por buscar este prazer através do texto casual ou texto pago para publicidade onde muitas vezes não consegui alcançar o clímax da redação pela falta de intimidade e cumplicidade entre os envolvidos.
Aliás tive bons momentos nestes 20 anos de monogamia redacional, escrevendo para publicidade mas nunca com a mesma intensidade que sentimos ao amar quem automaticamente se encaixa conosco, acelera nosso coração e nos dá tudo que precisamos: uma espécie de prazer em paz.
Retirar a liberdade criativa, tentar enquadrá-la em moldes e parâmetros é como tirar não só o prazer mas o meu equilíbrio afinal por tudo que citei nestes parágrafos sem a caneta não paro em pé, minha cabeça não desacelera, não processo tanta caoticidade no mundo sem a reflexão e o canal que só o texto me dá. É aquela velha frase adaptada: Pare o mundo que eu quero escrever!
E ainda tem a questão "dopamínica" novamente em um vício que pode apenas fazer mal a quem lê e não curte ao contrário de quem escreve.
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